terça-feira, 13 de novembro de 2012

JEITINHO



O 'jeitinho' pode ser até uma estratégia de sobrevivência, mas não podemos desconhecer que uma nova 'civilização' se instalou nos trópicos, tomou posse da terra, produziu, cresceu e conduziu de forma precária ou não o Brasil e a América Latina ao mundo moderno e isso se não foi harmonizado, pode perfeitamente sê-lo, desde que se respeitem os DIREITOS de toda a COMUNIDADE NACIONAL, sem instrumentalização de grupos ou segmentos ligados à militância auto denominada 'social'.



Confira a abordagem do ponto de vista ético-jurídico, no artigo "Brasil para principiantes".

Abs Rivadavia Rosa





Brasil para principiantes


Autor(es): Mônica Sifuentes


Correio Braziliense - 11/11/2012





Desembargadora do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região

Na década de 1960, o húngaro naturalizado brasileiro Peter Kellemen escreveu um livrinho que, se por um lado fez sucesso, por outro foi também objeto de muitas críticas. Chama-se Brasil para principiantes. Nele, o autor conta fatos hilários e supostamente verdadeiros da sua chegada ao Brasil e sobre como penou para se acostumar ao conhecido “jeitinho brasileiro”.
Inicia o livro com a história de como foi convencido pelo próprio cônsul a declarar a sua profissão como agrônomo, não como médico, ao preencher o formulário para obtenção do visto de entrada no Brasil. “Meu filho, você acha que está fazendo uma declaração falsa ou, digamos, uma afirmação sem fundamento? Evitamos somente que perca seu tempo e possa embarcar logo. Seu visto ficará pronto à tarde.”

Segundo o autor, o cônsul não lhe sugeriu a mudança da declaração da profissão de médico para agrônomo com a preocupação de ganhar dinheiro ou algum presente, mesmo porque era um homem milionário. Simplesmente, diante das dezenas de imigrantes que passavam diariamente pelo consulado, a declaração como agrônomo, profissional cujo ingresso no país era naquele momento incentivado pelas autoridades, facilitaria o trabalho dos ocupados funcionários daquela repartição. Assim foi o autor apresentado ao “jeitinho” brasileiro que, como disse no livro, não tem tradução para outro idioma.

Mas será que, passados mais de 50 anos, alguma coisa mudou nesse jeito, supostamente peculiar do brasileiro, de tentar se livrar de compromissos, de não cumprir normas? Pesquisa recente da Universidade Federal de Minas Gerais e do Instituto Vox Populi chegou a um resultado que não é muito animador, embora certamente muito melhor do que apresentaria se realizada a consulta em 1960.
Segundo se apurou, aproximadamente um em cada quatro brasileiros (23%) ainda hoje não considera transgressão à lei dar dinheiro a um guarda para evitar o pagamento de multa ou sonegar impostos. Há outros atos igualmente considerados toleráveis pelos pesquisados, conforme lista divulgada pelo jornal da BBC no Brasil: não dar nota fiscal, não pagar Imposto de Renda, falsificar carteirinha de estudante, dar troco errado, furar fila, comprar produto falsificado, entre outras. Segundo a pesquisa, as pessoas não consideram que esses atos do seu cotidiano sejam semelhantes à corrupção.

De fato, a corrupção é fenômeno que, presente tanto em países pobres como em ricos, sempre é relacionado à apropriação criminosa de recursos públicos que deveriam ser usados na melhoria das condições de vida de toda a sociedade. Mas não há dúvidas, por seu lado, de que esses atos individuais de transgressão acabam por gerar um sentimento de permissibilidade, uma ideia de que, afinal de contas, uma infraçãozinha aqui ou ali não prejudica a ninguém. Esquece-se, no entanto, de que essa conduta não se compatibiliza com o respeito ao direito coletivo, de toda a população, de ver as suas leis obedecidas, sem privilégios, em benefício de todos. Esse é um dos postulados mais caros à democracia.

O antropólogo e escritor Roberto DaMatta diz que o jeitinho se confunde com corrupção e é transgressão, porque desiguala o que deveria ser obrigatoriamente tratado com igualdade. O ponto central não é exatamente a existência do jeitinho como espécie de ponte negativa entre o que é exigido pela lei e as condutas que lhe são contrárias, toleradas pelas pessoas. É a persistência de um estilo de lidar com as normas que induz quem deveria cumpri-las, ou exigir o seu cumprimento, a passar por cima delas.

Adotar uma postura ética não deve se restringir apenas ao âmbito político ou empresarial. É preciso que toda pessoa a pratique no seu dia a dia, procurando agir com correção no trabalho, na escola, como também na vida familiar. Respeitar a fila, dar nota fiscal, dizer não aos produtos falsificados, pagar as multas ou impugnar o seu pagamento pelas vias legítimas são aspectos de um comportamento que, segundo a pesquisa, pelo menos 23% dos brasileiros ainda não conseguiu compreender.

Curiosamente, diz-se que Peter Kellemen acabou por assimilar e até mesmo superar, com maestria, o tão criticado jeitinho. Percebendo que o país era campo fértil para falcatruas de toda ordem, idealizou poucos anos depois de estar no Brasil o golpe do Carnê Fartura, em que vendia a realização do sonho da riqueza fácil. Descoberta a farsa, foi preso, subornou policiais e fugiu para o Paraguai, onde nunca mais ninguém o viu. Principiantes, no final das contas, eram os incautos brasileiros, provando que ele, o estrangeiro que debochou de nós, de trouxa não tinha nada.

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