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Parece então que o inumano não é a violência nem a animalidade do homem (ela e o a-hamano), mas o discurso civilizado ou cultural do ódio, quando se trata de justificar intelectual ou culturalmente a sua crueldade, disfarçando-a em vestes culturais que a enobrecem em direito. Tivemos tanto medo da noção de raça, em nome da diversidade de culturas, que esquecemos a única que merece consideração: a raça humana. O humano tornou-se, se me atrevo a dizê-lo, objecto de ódio racial.
Nesse furor de imagens culturais dos nossos contemporâneos, existe um deficit de representação do humano. A imagem do humano não pode ser encontrada na cultura. A cultura já não dá acesso à nossa humanidade e é talvez isso que a pintura abstracta nos diz, quando vai além da figuração para apresentar a interioridade, a densidade, a vibração da interioridade humana no mundo. O critério cultural já não consegue fundar uma ética de reconhecimento: o étnico liquidou o ético. Debaixo da máscara cultural, esqueceu-se essa luz natural da razão, essa capacidade de que falava ROUSSEAU de entrarmos em nos mesmos para executar a voz da consciência no silêncio das paixões.
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